domingo, 12 de março de 2017

Sobre o Projeto de Lei "Escola sem Partido (de esquerda)"


         A palavra política deriva de politikós, do grego, e diz respeito àquilo que é da cidade, da pólis (na Grécia Antiga), da sociedade, que é de interesse do homem enquanto cidadão. Aristóteles expôs o primeiro conceito de política em Ética e depois em Política, para ele a investigação em torno do que deveria ser o bem e o bem supremo deveria ser feito por essa ciência (política).

Ao longo do tempo o termo política deixou de ter o sentido de adjetivo (aquilo que é da cidade, sociedade) e passou a ser um modo de “saber lidar” com as coisas da cidade, da sociedade. Aristóteles estabelece uma relação da ética com a política na qual a ética é compreendida como inferior a política porque a política possibilita a felicidade, já que o ser humano só se realiza plenamente nas relações sociais e é nessas ultimas que a política se faz presente. A ética e política possuem ainda características normativas, pois são relativas ao que se deve fazer e não fazer e com qual objetivo.

Assim o conceito de política de Aristóteles nos mostra que a política pode ser mais do que apenas uma referência ao sistema político a que pertencemos, pode ser a verdadeira essência das relações social dos seres humanos que vivem em uma mesma sociedade. No caso brasileiro, vivemos sob um sistema político republicano com uma democracia representativa, mas isso não esgota a dimensão política que está presente em cada âmbito da vida cotidiana de todos.

 Grosso modo, assim como a política a educação em um sentido mais amplo, essa última pode ser compreendida enquanto o resultado do acumulo histórico de conhecimentos e experiências humanas, ou seja, síntese da organização das ações coletivas dos homens, portanto, corresponde ao desenvolvimento das forças produtivas que estruturam e moldam a sociedade. Em última instancia, ela é um reflexo do desenvolvimento do ser social, e este por sua vez é quase sempre um produto das condições objetivas de determinado tempo histórico.

Portanto, para compreender o significado do Projeto de Lei “Escola sem Partido” (PLS 193/2016, PL 1411/2015 e PL 867/2015) é importante resgatar e problematizar a gênese do nosso atual sistema de educação formal. Esse modelo de escolas existe a mais de 200 anos e se originou no modelo “prussiano” de educação baseado em um padrão militar do século XVIII, que tinha como objetivo educar as massas gerando um exército de pessoas obedientes e competitivas.

Algumas características do nosso atual modelo educacional brasileiro, assim como na maior parte dos países ocidentais, foi inspirado na perspectiva ideológica das fábricas e dos presídios, com grandes portões, grades e muros, com horários estipulados de entrada e de saída indicados com sirenes, fardas obrigatórias e intervalos programados. As salas de aula possuem cadeiras enfileiradas na direção de um quadro negro que possui a figura do professor enquanto o detentor de conhecimentos, ali se materializa uma hierarquia vertical, que se expressa na organização da escola como um todo, com cargos de secretários, inspetores e diretores, que expõe um sistema de poder na qual os alunos não possuem participação efetivamente deliberativa. Ou seja, a escola é em essência ideológica.

            Nesse sentido é possível observar em nosso atual sistema educacional heranças de estruturas políticas ditatoriais cujo objetivo é a produção de seres adestrados e acríticos que sirvam ao sistema de forma passiva, que estão ali se preparando para no futuro ser um operário/trabalhador. Entretanto essa perspectiva ideológica ignora o fato de que o estudante é um ser pensante que possui opiniões, indagações e é um ser crítico e criativo, sendo assim a possibilidade de um ambiente escolar horizontal e realmente democrático não se consolidou de forma hegemônica.

Embora existam inúmeras experiências pedagógicas e metodológicas que vão na contra mão desse sistema educacional, infelizmente a maior parte das instituições educacionais seguem um modelo conservador que não problematiza a natureza da aprendizagem, a importância da liberdade de expressão ou o princípios de vinculo ou solidariedade que deveria subsidiar as relações humanas.

De modo especifico o projeto de Lei “Escola sem Partido” 867/2015 (antigos PLS 193/2016, PL 1411/2015) não defende uma escola sem partido ou uma educação sem doutrinamento ou sem influencias ideológicas, mas defende uma escola sem partido e sem influencias de esquerda. O projeto estabelece como um de seus princípios a “I - neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado”, ou seja, pressupõe que exista algum tipo de educação pura que se baseia em uma neutralidade e imparcialidade dentro das escolas, quando isso não é se quer possível.

A instituição escolar, assim como a família, a igreja e entre outras instituições é ideológica. A forma como se organiza estruturalmente, como elabora e escolhe seus conteúdos, como os distribui em disciplinas e fragmenta o conhecimento é ideológica, a forma como estabelece o que fará parte ou não da grade curricular, o método e as dinâmicas em sala de aula e a relação aluno professor é ideológica.

Não existe escola sem ideologia, seria muito bom que um professor não impusesse apenas uma ideologia e que abrisse caminho sempre para o debate, mas é uma crença, em primeiro lugar fantasiosa, de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola forme a cabeça das pessoas, e que esses jovens saiam líderes sindicais. Os jovens têm sua própria opinião, ouvem o professor, vão dizer que o professor é de tal partido. Os jovens não são massa de manobra e os pais e professores sabem que os jovens têm sua própria opinião. Toda opinião é política, inclusive a escola sem partido (KARNAL apud SHAW, 2016. Grifo nosso).

O projeto de lei estabelece ainda em seu artigo 3º “São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”. Agora cabe questionar o que eles entendem por doutrinação, o que de fato seria e não seria doutrinário dentro de uma sala de aula? Pois as constantes referências a essa terminologia indicam pensamentos e perspectivas da esquerda como “doutrinária” enquanto a perspectiva ideológica de direita é compreendido com libertária e verdadeira.

A continuação do mesmo artigo, afirma que as atividades não podem estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais, quando na verdade isso contraria o principio da educação, que é a dúvida, o questionamento e a problematização da realidade.   Como falar em avanço cientifica quando existe um grupo social que defende uma educação baseada em um amontoado de crenças religiosas e morais? A ciência existe para que possamos errar menos, para que possamos buscar “um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodologicamente, sistematizados e verificáveis [...] (ANDER-EGG, 1978)”. A ciência só existe quando colocamos nossos conhecimentos a prova, quando sobre tudo consideramos criticamente a história, com seus desenvolvimentos e retrocessos.

Vivemos em uma sociedade com liberdade religiosa, a população possui religiões e crenças diferentes e existe uma parcela de ateus e agnósticos. Nessa lógica qual seria o papel do Estado (laico)? E da escola pública? Não falar sobre nenhuma religião ou falar de todas? E sobre os conteúdos de história, filosofia e sociologia? Como lecionar ou aprender esses conteúdos se não se pode “entrar em conflito com a religião ou convicções morais dos pais”? Vamos esconder os processos históricos das próximas gerações fingindo que eles nunca ocorreram? Será possível uma educação isenta de qualquer ideologia e princípios morais, culturais ou religiosos?

Esse projeto de Lei não possui fundamentos suficientes ou coerentes com a realidade, que não consegue e não poderia ser isento de alguma perspectiva político ideológica, que não ter uma posição é uma posição e que ainda não trará ganhos algum para a educação pública. Seus impactos tendem a ser desastrosos, tenebrosos, um passo para o autoritarismo e para a censura.

Referências
ANDER-EGG, Ezequiel. Introducción a las técnicas de investigación social: para trabajadores sociales. 7. ed. Buenos Aires: Humanitas, 1978.

La Educación Prohibida. [Registro vídeo]. Realização de Germán Doin. Argentina, 2012. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=-1Y9OqSJKCc>. Acesso em: 06/08/2016

SHAW, Camila. Censura na Educação - entenda o que é o PL Escola Sem partido.  ANPED, 22 de jul. 2016 Disponível em: <http://www.anped.org.br/news/censura-na-educacao-entenda-o-que-e-o-pl-escola-sem-partido>. Acesso em 15/12/2016.

SMAILI, Soraya. Como educadores, não podemos aceitar a Escola sem Partido. Carta Capital, 28 de jul. 2016. Seção Sociedade. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/
escola-sem-partido-como-educadores-nao-podemos-aceitar>. Acesso em 28/02/2017.


DUTRA,  Claudia e MORENO, Camila. Escola Sem Partido: estratégia golpista para calar a educação. Carta Capital, 08 de set. 2016. Seção Educação. Disponível em: < https://www.cartaca pital.com.br/educacao/escola-sem-partido-estrategia-golpista-para-calar-a-educacao>. Acesso em 01/03/2017.